Palavras-chave: escuta psicanalítica magistratura, diferença ouvir escutar, desembargadora psicanalista
Passei décadas lendo petições, ouvindo testemunhos, proferindo decisões. O que carreguei desse tempo para o consultório não foi o direito — foi o humano que existia por trás de cada caso. E foi também a percepção, que ficou mais nítida com os anos, de que havia algo que o processo judicial era estruturalmente incapaz de oferecer: um espaço para ser ouvido de verdade.
O que eu ouvia por trás das petições
Todo processo judicial tem uma história antes. Às vezes muitas histórias. A disputa de guarda que chegava com linguagem jurídica impecável trazia dentro dela um casamento que havia se desfeito com dor. A ação de indenização entre ex-sócios escondia décadas de parceria que virou ressentimento. O recurso trabalhista muitas vezes era o único lugar onde alguém finalmente achava que seria ouvido — mesmo que o lugar errado para isso.
A diferença entre ouvir e escutar
Ouvir é um ato físico. Escutar é um ato de presença. No tribunal, eu ouvia muito. As palavras chegavam, eram registradas, avaliadas dentro de um sistema de relevância jurídica. Mas havia uma dimensão do que era dito que o processo não tinha capacidade de receber — a dimensão do sofrimento, do reconhecimento, da necessidade de ser visto por quem estava do outro lado. Essa dimensão ficava de fora. Às vezes determinava tudo.
O que a toga não permite — e o divã sim
O papel do juiz é decidir. Decidir exige certo tipo de distância — da história pessoal, do afeto, da parcialidade. Essa distância é necessária para a função. Mas ela tem um custo: não é possível, dentro dessa estrutura, simplesmente estar presente com alguém no seu sofrimento. A psicanálise oferece exatamente o oposto da decisão: um espaço onde nada precisa ser resolvido para que algo importante aconteça.
Por que essa trajetória importa para quem me procura
Não é curiosidade biográfica. Quem me procura — seja para atendimento individual, seja para uma intervenção numa organização — está trazendo um conflito. E eu chego a esse conflito com algo que poucas pessoas têm: a experiência prática de quem conviveu com conflito humano nas suas formas mais intensas durante décadas, e depois fez o percurso de entender o que acontece por dentro dessas histórias. Esses dois mundos, juntos, são o que ofereço.